sexta-feira, 24 de junho de 2016

E ainda assim

Talvez já não seja novidade nenhuma, mas está quase nas livrarias um novo romance em que andei perdendo o meu tempo. Chama-se "Macaco Infinito" e a capa está aí na barra lateral do blogue. O texto da contracapa diz assim:

Partindo do Teorema do Macaco Infinito, Marmelo escreveu uma metáfora sobre a criação, o mal e o tempo que vivemos: Paulo Piconegro é o dono, paralítico e amargo, de um prostíbulo. Maria do Socorro, a rapariga mais bonita do Bar Mitzvá, é a sua escrava sexual. Wakaso é o criado negro, absolutamente disponível e servil, manso e eficaz como um eletrodoméstico. Passa o tempo livre diante da máquina de escrever, forçado à crueldade de tentar concretizar o metafórico teorema. Objecto do ódio e da flor morta da misantropia de Piconegro, o criado acabará também por acrescentar uma nova dimensão à reprodução de um célebre tríptico de Hieronymus Bosch que o patrão tem no quarto.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Minha Luta

Estive duas tardes inteiras na Feira do Livro de Lisboa no fim-de-semana passado. Ao todo, foram nove horas a ver passar pessoas de um lado para o outro. Assinei quatro livros enquanto a multidão esgotava as existências do Mein Kampf num stand mais acima, a despeito de Adolf Hitler já não estar em condições de dar autógrafos.

Leio agora a entrevista em que o inglês Howard Jacobsen ironiza com a ideia de que tem cada vez menos leitores à medida que escreve mais livros e se torna mais conhecido. Talvez não seja um fenómeno tão bizarro assim. Entre um criminoso morto e um escritor disponível para escrever, conversar e dar autógrafos, as pessoas preferem o criminoso com o ridículo bigodinho de palhaço, ou o palhaço rico com o penteado esquisito de esquilo morto.

À minha luta perco-a, assim, a cada dia que passa e a cada livro que escrevo. Cada vez me doem mais os dias e os livros. Cada vez magoa mais a certeza de que os escrevo para (quase) ninguém.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Infância*
















Como quase tudo o que é humano, imperfeito e transitório, as frases “Escrevo o que quero escrever, nunca escrevo o que quero”, que são o mote deste encontro, só aparentemente constituem uma contradição. A incoerência, se for disso que se trata, reside na própria vida e nas suas múltiplas e diversas manifestações, na maravilha que é não ter certezas e, mesmo assim, continuar a fazer isto ou aquilo cumprindo o subjectivo desígnio que é viver. Quer se empregue o tempo a escrever, a desenhar, a amar ou a colar cartazes, existir é, em si, um paradoxo essencial e muito humanamente alheio às certezas aritméticas daqueles que, nunca tendo dúvidas, também se enganam (e nem sempre tão raramente como julgam). Viver é essencialmente a arte de falhar, aprender com o erro e seguir adiante. Com a literatura não sucede de forma diferente.

Escrever livros, ou proferir conferências em festivais literários como este, é quase sempre o caminho mais curto e recto para o ridículo ou para que alguém se veja recoberto com uma camada de alcatrão com penas com a qual se castigavam os farsantes e os larápios nas histórias de Lucky Luke, o cowboy mais rápido do que a própria sombra.

Ainda que metafóricos, o alcatrão e as penas do faroeste (e do ridículo) constituem o principal medo atávico de uma boa parte os escritores, quer dos escritores que escrevem quer daqueles que adquirem o complexo de Bartleby e preferem não o fazer. É-o também para os escritores postos a falar diante de uma audiência como esta. Escrever ou falar para que outros o leiam, escutem e avaliem é quase sempre um número tão arriscado quanto um qualquer funambulismo de circo. Não se quebra a espinha na queda, mas é o próprio ego que padece e geme, contundido pelo vexame do severo juiz que trazem dentro as pessoas não demasiado cheias de si próprias (ou que não se alimentem da empáfia que produzem).

Dito isto, peço que notem que ninguém me obrigou a estar neste palco, atrás desta mesa, e que, tal como sucede quando escrevo, aqui estou apenas a produzir as frases que quero e as suaves irrelevâncias em que milhões de neurónios chafurdaram enquanto tentava escrever isto que agora leio.

Assim como sucede enquanto faço aquilo a que se convencionou chamar literatura, limito-me aqui, esta tarde, a tentar empurrar ladeira acima a proverbial pedra de mármore desta alocução, a qual rolará montanha abaixo antes de ter conseguido levá-la até ao cume. No próximo ano, ou noutro qualquer festival de escritores, é quase certo que, qual Sísifo, voltarei a cumprir o bem pouco divino castigo de tentar espantar ou, ao menos, satisfazer a curiosidade de quem me escute, correndo outra vez o risco de fracassar. E, outra vez, a pedra rolará montanha abaixo, e eu com ela, quebrando nisto todos os ossos do meu anémico ego.

Sou, esta é a verdade, um indivíduo que padece de horror ao vexame e à vergonha da queda pública, e que, ao mesmo tempo, sofre de uma indómita e irrefreável atracção pelo abismo. Vivo entre a hesitação, a insegurança e o escrúpulo excessivo, por um lado, e um exibicionismo quase inconsciente, por outro. E por isso aqui estou expondo-me outra vez ao piche e às penas da vossa indiferença ou do vosso desdém, incorrendo exactamente no mesmo lapso de carácter que me leva a escrever um e outro livros com a certeza prévia e clara que nunca serei capaz de “escrever o que quero” — se calhar por não estar bem certo do que quero, se calhar por ser incapaz de perceber distintamente a formidável distância que vai do meu projecto à minha capacidade para o executar.

Talvez mais importante e essencial do que determinar se apenas escrevo o que realmente quero — e juro sobre o gargalo da minha melhor garrafa de vinho que o faço mesmo quando me limito a dar resposta a uma encomenda —, será questionar-me sobre os motivos pelos quais escrevo. Só a partir daqui, creio, será possível avaliar o resultado deste labor.

Ora, tanto quanto é possível auto-analisar-me, são vários os motivos que me levaram, há mais de 20 anos, a iniciar-me nesta venturosa perda de tempo que é a literatura. Fi-lo, desde logo, por não saber fazer mais nada, mas também, não nego, para obter reconhecimento, para que as outras pessoas gostem de mim e do que escrevo, e porque me agrada a possibilidade algo demiúrgica de reconstruir o mundo e recontá-lo à medida dos meus medos e dos sonhos, das minhas angústias, desilusões, entusiasmos e fantasmas.

Poderia, neste ponto, e sem faltar à verdade, invocar a já quase clássica definição de Gabriel García Márquez nos “Cem Anos de Solidão” e dizer que escrevo livros desde que percebi que a literatura é “o melhor brinquedo (...) para gozar com as outras pessoas”, acrescentando, porém, que a literatura também é a forma mais saudável de troçar de mim e de me pôr em causa.

Ainda melhor: como sugeria o Manuel António Pina numa crónica com muitos anos, a literatura é a melhor forma de fugir para o país de exílio que é a infância, onde me posso esconder e refugiar sempre que os ladrões da realidade venham para me roubar a inocência e os sonhos.

Escreveu o Pina que, embora as estatísticas não o refiram, há na nossa sociedade - liberal, fiscalista, economicista e austera - “uma enorme e perigosa carência de infância, de sonhos e de coisas verdadeiramente grandes”. Ora, escrever livros é, de certa forma, ser capaz de transcender e superar esta realidade. Enquanto escrevo, sou tão livre e louco como o filósofo Diógenes, que vivia dentro de um barril e carregava uma lamparina durante o dia a ver se encontrava um homem honesto que fosse — ou uma qualquer verdade essencial, íntegra e alheia à insensatez do quotidiano.

Escrevo, pois, carregando a minha tíbia lamparina de sonhador ou louco ao sol do meio dia. Faço-o como quem pratica um jogo infantil e lúdico, no qual o prazer e o desafio da busca são o único critério realmente válido. De todas as vezes julgo que erro e que fracasso; que não “escrevo o que quero”. Mas, se penso nisso mais detidamente, ocorre-me que esta permanente insatisfação, esta sensação de incompetência, não é outra coisa que uma forma de me enganar-me e de me fornecer o pretexto necessário para voltar a tentar uma e outra vez — como a criança que fui e construía castelos de areia demasiado próximos da espuma das ondas.

*Texto lido na edição de 2016 do festival literário Correntes d'Escritas


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fisioterapia

Se não contar com a minha fisioterapeuta, que parece divertir-se bastante enquanto tenta esticar-me o pernil e eu me contorço com dores, a utente mais bem-disposta da fisioterapia é a senhora gorda que avança pelo corredor como uma animal pesado e lento e que, a cada passo, diz que vai ser violada. Através das cortinas, ouço-a repetir várias vezes a expressão, mas não me parece que o faça para se queixar de alguma coisa em concreto. Dito por ela, a frase "estão-me a violar" (sic) soa um pouco como uma ameaça nem sequer particularmente velada.

Esta manhã vi-a pela primeira vez quando entrou no corredor dos cubículos e passou diante da frincha da minha cortina. Usa o cabelo curto, penteado com água para disfarçar a falta de banho matinal (procedimento equivalente, em política, à frase "cometemos muitos erros" proferida por Pedro Passos Coelho). Enquanto passava pelo corredor, a mulher comentou que lhe faltava o homem e seguiu adiante. Daí a um pedaço, ouvi-a anunciar que se ia pôr de cu para o ar. Não sei bem porquê, mas também me lembrei de Passos Coelho e da posição preferida do governo a que este trampolineiro presidiu.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Mundos alienígenas

Um dos motivos pelos quais ainda tenho algum gosto por este blogue está relacionado com o facto de, noutros tempos, os textos que aqui publiquei terem sido lidos pelo Manuel António Pina – e que saudades temos do Pina e que falta que nos faz aquilo que ele escrevia para os jornais e para as revistas.

Esta manhã, enquanto lia a colectânea póstuma “Crónicas, Saudade da Literatura” para me distrair da electro-estimulação dos músculos da perna direita e das conversas dos outros idosos da fisioterapia – a vida nos bairros sociais, as casas sem condições, o hálito a vinho de um homem qualquer, a mãe que matou as duas filhas – encontrei a crónica “Mundos Alienígenas”, da qual o Pina me falou uma vez: disse-me que tinha escrito na Notícias Magazine alguma coisa sobre as minhas viagens de autocarro, mas eu nunca cheguei a ler o texto. Li-a apenas esta manhã, constatando que o Pina cometeu a proeza de incluir o meu nome da mesma frase onde também aparece o do energúmeno Pedro Passos Coelho.

Ora a minha convivência, numa mesma frase, com Passos Coelho é, assim de repente, uma das coisas mais alienígenas que me aconteceram, muito mais estranha do que todas as conversas destrambelhadas dos autocarros, do que o mundo cor-de-rosa das Bibás e das Mituxas, ou do que a vida das outras idosas da clínica fisiátrica. Lida cinco anos depois, a crónica do Pina parece-me produto de um universo paralelo e de um mundo que era um pouco melhor pelo simples facto de o Manuel António Pina ainda nele viver, fumando cigarrilhas e telefonando para contar anedotas e histórias intermináveis.

Sinto, às vezes, falta das viagens no autocarro e de escrever as histórias que ouvia e imaginava distorcendo-as. Mas o pior de tudo é saber que o Pina não voltará a escrever aquelas ironias certeiras que vinham todas as manhãs com o JN.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Princípio da protecção da confiança













Em 1990, quando comecei a trabalhar oficialmente, a pagar impostos e a descontar para a segurança social, a lei previa, salvo erro, que teria direito a aposentar-me ao fim de 30 anos de trabalho. Se a matemática não me trai, poderia, se me apetecesse, pedir a reforma daqui a 4 anos, ocupando o resto do tempo que tiver de vida como bem entender, talvez de um modo criativo e benemérito, talvez escrevendo livros, talvez fazendo voluntariado, talvez, epicurista como um nababo ou um turista inglês no Algarve, esfregando manteiga na barriga ao sol. Espero, por isso, que o Tribunal Constitucional tenha em conta as legítimas expectativas que criei e que, defendendo o princípio da protecção da confiança, impeça o Estado de me forçar à violência de trabalhar até aos 67, 70 ou sabe-se lá quantos anos. Obrigado.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Mastigar com moderação: um programa eleitoral para a presidência da república

O vasto conjunto de indivíduos muito desagradáveis que se candidataram à presidência da república com o singular intuito de estorvar Marcelo Rebelo de Sousa até podem empenhar-se em negá-lo com veemência, mas o ex-comentador da TVI tem demonstrado à exaustão que não só é a absoluta personificação da "moderação" como, além disso, é também muito diferente de Cavaco Silva.

Tanto quanto tenho podido acompanhar pelos órgãos de comunicação social, Marcelo aparece quase todos os dias a mastigar alguma coisa em algum canto do país, antes ou depois de proferir alguma declaração neutra e irrelevante. Seja fogaça, croquete, lasca de presunto, pastel de nata, banana, lanche ou outra coisa qualquer, o candidato come tudo o que lhe surja pela frente - e com que soberba classe o faz!

Cavaco, sabe-se, mastiga de uma modo alarve e capaz de envergonhar tanto a pátria como a família mais chegada. Marcelo, pelo contrário, mastiga com a elegância e a elevação de alguém que tem Cascais no sangue e que frequentou com igual à-vontade os grandes salões de pelo menos dois regimes políticos. A sua mastigação é, assim, cuidada e muitíssimo telegénica, à altura de um chefe de Estado de qualquer país civilizado. O "professor" não se limita a pregar a moderação: exemplifica-a a cada paragem da sua caravana, mastigando com enorme equilíbrio e ponderação. E nisto se distingue absolutamente da múmia que actualmente ocupa o cargo.

Pelo que tenho podido perceber, a mastigação com moderação resume todo o programa do candidato mais bem colocado para ser o próximo presidente da república do meu país. Estamos, pois, bem arranjados.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Que os festejos comecem


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Orientações

As crónicas mensais na revista Notícias Magazine podem ser lidas aqui.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Tradutor automático do jornalismo português para português#1

As notícias desta manhã diziam que um banco em dificuldades (vocês sabem de que estou a falar) será socorrido por "um fundo para absorver activos tóxicos". Em português é: os portugueses vão ser chamados a tapar com os seus impostos o buraco nas contas do banco deixado pelo roubo de um grupo de engravatados com boa relações com o poder.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Boas notícias















Inicio no próximo domingo uma nova crónica regular na revista nacional de maior circulação, a Notícias Magazine, distribuída com o Jornal de Notícias e com o Diário de Notícias . Depois haverá texto novo a cada quatro semanas, alternando com o José Luís Peixoto, com o Afonso Cruz e com a Ana Bacalhau.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Promoção da leitura: o empolgante exemplo angolano

Hoje, num jornal cujo nome não quero recordar, o advogado Francisco Teixeira da Mota escreve: "Por estes dias, em Luanda, está a escrever-se uma página triste do Poder Judicial angolano".
Na página anterior, um editorialista anónimo considera que o julgamento de um grupo de activista pró-democracia em Angola é "um triste simulacro de justiça".
Eu, que gosto de ver o lado positivo que há em todas as coisas (ou que, pelo menos, gosto de dar esta impressão quando me convém), defendo que ambas as análises estão inquinadas pela má fé, dando razão aos sempre perspicazes editoriais do Jornal de Angola (os quais, quando não são perspicazes, são, pelo menos, belas peças de humor e muito divertidos de ler). Para mitigar o colonialismo e a óbvia má vontade, bastaria, porém, que os articulistas ressabiados tivessem lido a página 27 do mesmo inominável diário.
Ali se lê que o juiz do processo dos activistas decidiu que o livro "Da Ditadura à Democracia", do norte-americano Gene Sharp, será integralmente lido na sala do tribunal. Ontem, por exemplo, já se escutou o conteúdo de 32 das 180 páginas que o compõem.
Em países civilizados como a Alemanha, as pessoas pagam para assistir a sessões públicas de leitura de livros, reconhecendo que tais espectáculos são importantes para uma formação cultural sólida. Em Angola, o estado social de José Eduardo dos Santos oferece gratuitamente sessões públicas de leitura, ainda por cima de livros de autores estrangeiros e abordando temas fracturantes, mas, ainda assim, tudo o que a gentalha consegue fazer é dizer mal.
E que tal se, em vez de procurarem criticar e desacreditar o Poder Judicial angolano, dessem o braço a torcer e elogiassem o exemplar programa de promoção da leitura?

P.S,: A gerência deste blogue faz votos para que, no próximo julgamento de um homicídio perpetrado contra uma senhora idosa, a instrutiva justiça angolana promova a leitura de Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski, na sala de audiência.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Desagravo formal e urgente à vilipendiada banana da Madeira
















Um dia destes, prometo, hei-de ser capaz de desligar o rádio e a televisão, evitando, deste modo, aborrecer-me com o abundante caudal de esterco que produzem os representantes das instituições que concentram a atenção dos jornalistas, essa massa infecta que vai dos presidentes de clubes de futebol ao presidente da república (sem esquecer os bitaiteiros e líderes do PàF, da CIP, da CCP, da UGT, da UE, do BCE e das siglas bancárias em geral). Hoje, porém, tomei conhecimento das declarações elogiosas proferidas pelo indivíduo senil que é a primeira figura do Estado e que tiveram por alvo a banana da Madeira, nomeadamente o seu tamanho e sabor. Ora a banana da Madeira é, com efeito, um magnífico fruto, sobretudo quando é pequeno por não ter crescido à pressa dentro dos sacos de plástico azuis que agora pintam as encostas da ilha. Quando limpa e honesta, não há banana mais saborosa, pelo que, embora conspurcada pelo elogio de Cavaco, importa deixar claro que as bananas da Madeira não podem ser todas confundidas com a badalhoca turbinada que o presidente da república mastigou. Nem o Cavaco consegue estragar todas as bananas da ilha.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Não mexam na minha chouriça















Um dia, se obedecermos cegamente aos alertas cancerígenos da Organização Mundial de Saúde, havemos de morrer todos muitíssimo saudáveis. Desta vez, o dictat sanitário recaiu sobre as salsichas, o fiambre, o bacon, a carne vermelha e os enchidos, essa ameaça insidiosa e vil. As minhas chouriças estão desde ontem cabisbaixas e tristonhas, os presuntos todos que hei-de comer puseram-se macambúzios e até me parece que agora manquejam um pouco por causa de uma dor que os apanha pelos quartos e que talvez seja uma espécie de ciática post mortem. Safaram-se, mesmo à justa, as duas alheiras que, furtivo, ingeri no fim-de-semana passado, indiferente à histeria da botulina, mas, ainda assim, tenho agora necessidade de me sentar perto das chouriças que tenho em casa e de ficar muito tempo a conversar com elas enquanto fumo escandalosas cigarrilhas. Digo-lhes que não há-de ser nada. Que a OMS também em tempos decretou o malefício cancerígeno do diesel e que não foi por isso que a Volkswagen ou as outras marcas deixaram de produzir os diabólicos motores, nem os carros fatais cessaram de andar por aí poluindo e envenenando o ar alheio. À minha chouriça, porém, não a abandona uma certa melancolia, a soturnidade injustiçada que ontem a acometeu. Digo-lhe que não queira saber dos títulos dos jornais, dos alarmes das televisões. Que hei-de comê-la até que a morte nos separe, prometo. Ela afasta os olhos para a janela, para ver Outubro declinando, o cortejo de morte das folhas dos plátanos, o velório dos aguaceiros. Hei-de comer-te até que a morte nos separe, repito. Sem me encarar, porém, ela verte uma lágrima furtiva e sussurra-me que digo a mesma coisa a todas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

BemMarMeQuer

Caso interesse a alguém, gostei bastante da peça "BemMarMeQuer", centésima quinta produção do Teatro Art'Imagem, que está em cena no Teatro do Campo Alegre. Baseado na obra "Mar Me Quer", de Mia Couto, é uma demonstração viva da possibilidade de fazer um bom espectáculo de teatro com poucos meios, muita humildade, bom senso e quase nenhum apoio. Como diz o avô Celestino, "quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós". Ide ver.

Cada macaco no seu embondeiro

Assinei há algum tempo o documento da Amnistia Internacional pela libertação dos quinze presos políticos do regime angolano (chamo-lhe assim por não ser capaz de conceber uma democracia onde haja pessoas presas por terem lido um determinado livro), mas procurarei manter a sensatez de não escrever nenhum apelo aos líderes do regime. Tenho a certeza absoluta de que eles não o leriam.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Leitores vivos e mortos

Palavra de honra: acabo de ler numa revista de referência a frase "se [Luaty Beirão] ainda estiver vivo quando ler estas linhas".
Também eu, às vezes, acalento a improvável esperança de que algum leitor venha ainda tropeçar neste blogue moribundo e que, quem sabe, se interesse pelo que aqui está escrito. Também nesse caso não cuidarei de saber se está vivo ou morto, ou que marca de perfume usa. Se é leitor, só pode ser coisa boa.

domingo, 18 de outubro de 2015

Chão em chamas















O romance "As Sereias do Mindelo" tinha sido editado há mais de um ano quando um jornalista galego, num programa de televisão gravado na Faculdade de Filologia de Santiago de Compostela, me perguntou por que motivo o livro tinha um capítulo relativo a cada mês do ano excepto aquele que caberia ao mês de Fevereiro. Eu não tinha reparado nessa ausência, nessa falha. Os editores e os revisores também não tinham notado. Nenhum leitor que eu conhecesse havia apontado esse lapso. No entando, a falha lá estava e era inegável: após os capítulos Dezembro e Janeiro vinha o capítulo Março. Na entrevista, respondi como pude, tentando dissimular a surpresa e o embaraço, mas é possível que a dúvida nunca me tenha abandonado. Ontem, enquanto escutava mais um dos monumentais concertos da Orquestra Jazz de Matosinhos (à qual só se dá a devida atenção e reconhecimento quando actua em Lisboa ou Barcelona), lembrei-me do conto "Crescendo and diminuendo in blue", inspirado num músico de jazz cabo-verdiano e que, de algum modo, é uma pequena sequela da história de nha Irene, uma das sereias do Mindelo. Mas só esta manhã, depois de acordar, é que as coisas acabaram de encaixar-se. "Crescendo and diminuendo in blue" é o capítulo perdido do livro que, caso estivesse completo, devia ter-se chamado "Chão em chamas" e que teria exactamente doze capítulos, um por cada mês do ano.

Mulher triste

Passei esta tarde por uma mulher singular: tinha o cabelo pintado de vermelho, um vermelho escuro e triste, quase roxo, e estava sentada num daqueles mecos destinados a impedir que os carros estacionem em cima dos passeios. Enquanto me aproximava, percebi que a mulher estava a ler um livro e, por isso, entusiasmei-me um pouco. Talvez fosse uma leitora excêntrica e obsessiva, incapaz de resistir à maravilha de um capítulo qualquer, de uma frase. Quando fiquei suficientemente próximo da mulher, vi o título do livro: "Reveja os ensinamentos todos os dias". Tratava-se só de uma mulher triste, afinal.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Estrebuchar

Exceptuando os lucrativos casos em que são apascentados pelas mesmas celebridades que preenchem as páginas das revistas dedicadas à futilidade, os blogues estão mortos. Este blogue não é excepção: está morto e jaz na mesa de um teatro anatómico vazio, envolto em penumbra e moscas. Estando morto, tresanda. Mas, às vezes, ainda estrebucha.

A tragédia, o caos, o apocalipse

Também eu estou em sobressalto. Tal como as bolsas, os mercados financeiros, a matilha selvagem dos interesses instalados e a gatunagem em geral, acordo de noite aterrorizado com a possibilidade de um governo que junte o PS e a esquerda parlamentar, a qual, conforme se sabe, tem o hábito perverso de devorar criancinhas e de não frequentar o arco da governação nem as arcadas do Terreiro do Paço. Os meus pesadelos passaram a incluir cenários em que os juros sobem impulsionados pela gárgula assustadora da Catarina Martins, em que as cotações do PSI 20 desfalecem à simples menção do nome de algum Jerónimo que não seja também Martins e em que a banca afunda assim que lhe "cheira a Syriza". Imagino e temo um cenário em que os drogados chiques da bolsa, em plena trip de coca, provoquem um pandemónio e levem as empresas a destruir postos de trabalho; que, enfim, também eu perco o meu emprego. Mas depois acordo e ocorre-me que já não tenho um emprego e que passei a ser um prestador de serviços a termo certo, felizmente não tão mal remunerado como a maioria dos que ainda trabalham e sobreviveram a quatro anos de um governo de coligação de dois partidos que também concorreram a eleições separados, mas que, pelos vistos, já então eram um só corpo e um só espírito juntos por um só programa sem diferenças nem divergências irrevogáveis. Acordo e quero que se forniquem todos os Barrosos e todos os Pires de Lima, mais as respectivas trombetas do apocalipse. Volto-me na cama e constato que é para o lado que durmo melhor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Portugal. tenho vontade de vomitar. na tua boca

Tenho pensado bastante naquele poema do Jorge de Sousa Braga em que o poeta manifesta a vontade de beijar Portugal "muito apaixonadamente. na boca". Os versos vêm-me à cabeça na exacta medida em que tenho quase a certeza de que Portugal sofre de mau hálito, aftas, micose oral e outras doenças do foro estomatológico. Beijar Portugal na boca há-de, pois, ser muito nojento. Não tenho a mais pequena vontade de beijar um país pusilânime que elegeu quatro vezes um indivíduo como Cavaco Silva, a indigna figurinha que nem sequer estará presente nas comemorações da república de que é presidente (e que até já hasteou a respectiva bandeira de pernas para o ar). O Portugal mesquinho, pequenino, paroquial e medroso, o Portugal que há 80 anos venera, elege e teme os mesmos políticos, provoca-me um asco profundo. Penso nesse país que para aí vai em campanhas e sondagens, vejo-lhe a boca aberta, malcheirosa, desdentada — e só tenho vontade de vomitar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Às portas da Europa

É uma coincidência que esteja a ler "Danúbio", o livro de Claudio Magris, enquanto volta a estar na ordem do dia o rio (e o eixo geográfico) para onde a História da Europa parece confluir ciclicamente. Da Sérvia para a Hungria, e depois para a Áustria e para a Alemanha, centenas de milhares de seres humanos desesperados voltam a percorrer o incontornável trilho. Recordo, por isso, o que Magris escreveu no capítulo "Os Turcos às portas de Viena", dedicado à batalha que, em 1863, manteve o islão fora da Europa, mas também a uma exposição que evocava aquela batalha. Aqui, uma fotografia de um moderno artista turco tinha como legenda a frase "Os nossos avós passaram por aqui a cavalo e nós varremos hoje estas ruas. A culpa é nossa e não dos austríacos". Regresso a esta frase e à catadupa de imagens que todos os dias chegam da Hungria, da Grécia, da Áustria e da Alemanha, ao menino sírio afogado e lançado como um destroço para uma praia turca, à imensa maré que outra vez procura subir o Danúbio - não já para cavalgar e conquistar, nem sequer para varrer as nossas ruas em busca de uma vida melhor. Estas pessoas que aí vêm procuram apenas, mas desesperadamente, algo tão simples como sobreviver. E pouco lhes interessa de quem é a culpa. Releio Magris: "O Danúbio corre, largo, e o vento da tarde passa pelo café ao ar livre como a respiração de uma velha Europa que talvez esteja já hoje nas margens do mundo, sem já produzir mas apenas consumindo História". Devagar, um dia após o outro, empanturrámo-nos da História e da realidade que bate com estrondo às portas da Europa.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Engolir em seco













Ahmed (chamemos-lhe assim) deu à costa numa praia turca. Viajava num barco de refugiados sírios que procuravam chegar à Grécia, fugindo de uma guerra que os ocidentais desejaram e incentivaram. Ahmed era apenas uma criança como outras que seguiam no barco naufragado e que amanheceram mortos com a cara enterrada no areal. Parece um boneco escangalhado, mas é um menino que talvez pudesse ter chegado à Alemanha, crescido, estudado e descoberto a cura para uma doença rara. Era, enfim, uma criança com direito a um futuro qualquer. Que a imagem de Ahmed nunca nos abandone a cabeça. Talvez, ao menos, nos previna um pouco da estupidez, da indiferença e da intolerância

Foto de Nilufer Demir/Reuters

P.S.: o menino da fotografia chama-se Aylan e tem três anos - terá para sempre três anos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Se as mais belas páginas pudessem ser escritas nos dias mais feios





















Oliveira do Douro, Gaia, Agosto 2015

Cabeça no ar

Os jornais de ontem anunciavam a ocorrência de uma chuva de estrelas. Não vi nenhuma - talvez porque a manhã de hoje me pareceu perfeita para ficar na rua a fotografar nuvens. Qualquer pretexto parece ser bom quando se tem vontade de andar de cabeça no ar.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Se o arame farpado for a solução, então não há solução















Matosinhos, Janeiro de 2015

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tão farto disto

A pós-modernidade é fodida. Quando a morte de um leão numa caçada, por muito lamentável que seja, parece ser mais importante do que a morte de milhões de pessoas (à fome, à sede, a tentar passar uma fronteira), está tudo dito. Antigo, bota-de-elástico e fora de moda, lamento, claro, a sorte de Cecil, o felino mais famoso do Zimbabwe. Mas preocupa-me muito mais a sorte dos que fogem do apocalipse africano e a hipocrisia ocidental: os curdos são bons como carne para canhão na guerra contra o Estado Islâmico, mas péssimos enquanto vizinhos dos turcos. De dia são nossos aliados, à noite apoiamos aqueles que os bombardeiam. Estou tão farto disto. Tão farto.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A nossa avó

Foi enquanto conduzia que me lembrei do nosso avô, o Cricas, da fraqueza que ele tinha e de como foi perdendo todas as terras para as mulheres que sabiam levá-lo com cantigas (e outras artes menos canoras). Parece que ainda estou a ouvir a minha avó a contá-lo num almoço de domingo:
Deu conta de tudo lá com as senhoras que arranjava. De uma vez arranjou umas quatro seguidas. E chamava santinha à minha avó, santinha isto, santinha aquilo, e depois levava-a e mandava-a assinar os papéis passando as terras e o gado para o nome das outras. Ela não sabia ler e assinava, que remédio. É por isso que ao meu avô, que deus o tenha em eterno descanso, lhe chamavam aquele nome.
Às vezes ocorre-me que a fraqueza pelas mulheres é uma espécie de mau-olhado que nos deitaram. E, sendo assim, talvez a avó Lindaura devesse ter-nos talhado com aquelas palavras mágicas que ela sabe de cor:
Se te deu pela cabeça, valha-te Santa Teresa; se te deu pela frente, valha-te São Vicente; se te deu pela barriga, Santa Margarida; se te deu pela ilharga, Santa Clara; se te deu pelo fundo, Senhor de Todo o Mundo; se te deu por trás, valha-te São Brás. Ar dos vivos e ar dos mortos, ar dos excomungados, ar dos cíceros da casa e da cinza da barrela, eu talho e retalho para o mal passar e sarar.
 Agora, porém, é tarde para rezas e curas. O Cricas perdeu quase tudo o que tínhamos. A nossa irmã, segundo o veredicto generalizado da família, é uma perdida. E o Adolfo fez este lindo serviço. Parece-me que ouço a nossa avô proferindo outra vez a frase com que comentava todas as desgraças que aconteciam:
Ninguém diga que está bem.
O mal está feito. Siga, pois, a marinha, que entre mortos e feridos, dizia a avó, alguém há-de escapar.


Excerto do romance inédito A Roda do Mundo. A minha avó Augusta, em quem me inspirei para pintar a avó Lindaura, morreu ontem. Já não verá estas frases impressas. Mas consegui salvar, ao menos, uma das orações que ela dizia, por tê-la aprendido com a sua mãe. De outro modo, talvez esta reza se tivesse agora perdido de vez.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Início e fim

Regressei há dias ao lugar da Cal. A casa onde viveu a minha bisavó Emília - e onde passei tantos momentos felizes a despeito de o lugar ser pouco mais do que um tugúrio miserável sem água canalizada, sem tectos, sem conforto nenhum - é agora uma ruína serena que o mato selvagem vai cobrindo aos poucos.

Já caíram os telhados e algumas paredes, e tudo me parece muito mais pequeno e acanhado do que na memória que guardo. A cozinha negra de fumo desabou, soterrando a noite em que, adolescentes à roda do fogo, fumámos cigarros de palha sem que a avó, cega, fosse capaz de nos ver. A varanda de madeira também já não existe e o terraço em cujo pó a avó conseguia adivinhar as horas parece agora demasiado pequeno para as histórias que lá vivi.

A despeito da ruína e da decrepitude, do aspecto quase arqueológico que agora tem, o lugar da Cal e as coisas que há em redor não perdem a sua condição essencial. São, como Castelo de Vide, o lugar das raízes, do começo. A origem e a justificação de uma parte do que sou e do que faço está nos sítios que percorro como se o intervalo da ausência fosse uma abstracção.

Não regresso a Castelo de Vide como nunca regresso à Cal, em Avitoure, Cinfães: sou dali. De um modo cuja explicação exigiria meditações rebuscadas, o miúdo magro que fui continua a correr pelas pedras irregulares dos caminhos agora calcetados, saltando de quelha em quelha ou nas pedras do leito do Bestança. Ao lado da ruína da Cal, num recanto onde as águas da rega formavam um pequeno charco, ainda estou capturando os girinos (a que chamávamos "cabeçudos") quando vêm à tona para respirar.

Voltar à Cal foi como mergulhar no início, num charco matricial a cuja superfície acedo às vezes para respirar o ar reparador da memória. Regressar e sentir os lugares pequenos e acanhados implica que alguma coisa se alterou na própria escala em que medimos as coisas que nos cercam. Talvez a Cal pareça pequena porque cresci. Talvez pareça pequena porque o mundo ao seu redor inchou. Não interessa. Na Cal estou como que de regresso a coisas essenciais e honestas, longe do buzz e das ribaltas, alheio à contabilidade dos likes nas redes sociais e às estatísticas de acessos ao blogue, distante da necessidade de que desconhecidos validem e aceitem o que faço e o que sou.

Na Cal, nas ruínas das minhas origens em Avitoure, Cinfães, sou tudo aquilo que era antes de tudo o que aconteceu depois. Sou aquilo que não faz sentido ser aqui.